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terça-feira, 26 de novembro de 2019

Ester


Ester era o seu nome
Mãe de um amigo meu
Mulher bonita, vistosa
Olhar ardente, muito seu,

Era do “Brito & Brito
Cabeleireiros de fama
E às vezes via-a sentada
Na borda da sua cama,

O quarto do meu amigo
Era mesmo ali ao lado
E pela porta, entreaberta
Houve muito olhar trocado...

Salto alto, arranjada
Sempre de negro vestida
Os olhos pretos realçava
Nos quarentas, vivida,

Via-a quase todos os dias
Para mim era a “mãe”
Mas eu via, com agrado
Coisas que uma mulher tem...

Um dia bati à porta, abriu-a
De robe aberto...mesmo ali...
Perguntei-lhe: - Está boa?
Atirou-me: - Estou boa para si...

26-11-2019 - 12.00

segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Lida

Da "Arte Peripoética" de Ary dos Santos


Aquela poesia que então li
Transcendente, única, rara
Levou-me a tomar esta pena
Que creio, nunca mais pára.

25-11-2019 - 14.10

quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Maria da Graça

Milhares de vezes passei
Na velha rua onde vivemos,
Mas nunca me deu para ter
Registos desse acontecer
Naquilo que lá fizemos,

Tardes loucas dum amor
Que nos enchia o dia,
Um querer e o ensejo
De no poder do desejo
Teu ser sempre me queria,

Segredos bem guardados
Pelo amor que nos unia,
Que eu em casa recordava
E com prazer dissecava
Pois ainda não o conhecia,

O prato do vaso de flores
E a sua mensagem oculta,
Que mesmo tão utilizada
Nunca foi por nós esgotada
Nem merecedora de multa...

6-2-2018

Dementia

A casa sem ti está vazia pai
Apenas cheia da tua ausência,
Está aqui a mãe que ficou
Mas que nunca recuperou
Por completo a consciência,

Estavas já num outro lado
E ela acordava ansiosa,
Pelos débeis resultados
Pela medicina apresentados
Na solução medicamentosa,

Tu eras uma trave que ruiu
E que sustentava a estrutura,
Eu só consigo esta vivência
Porque me sirvo da experiência
De conviver com a loucura,

Deu cabo de ti e de outros
E mais que nessa via privem,
Presos num limbo inatingível
São o espectáculo horrível
Dos mortos que ainda vivem.

2011

Da Saudade

É tão profunda a saudade
Implacável a recordação,
Dos meus pais ainda juntos
Falando dos seus assuntos
Passeando mão na mão,

E como os vi a decair
Mirrando às mãos do tempo,
Nas doenças que eu via
Como sinal de que um dia
Chegará o meu momento,

Cada vez que entro a porta
Não sei o que vou encontrar,
E na expectativa da tristeza
Apoio-me na firme certeza
De que tudo irei enfrentar,

Mas quando a vejo acordada
Olhando espantada para mim,
Que importa que esteja molhada?
Depois de limpa e lavada
Tem mais um tempo até ao fim,

E naquela casa onde nasci
Todo o tempo que lá estou,
Reconheço o que lá está
Para que a memória não vá
Perder parte do que sou,

Olho à volta a minha infância
Nas divisões reflectida,
Ali brinquei, ali dormi
Aprendi, sofri e ri
Revejo ali a minha vida,

E como um sonho remoto
De ruínas e hospitais,
Tão bem espelhou os temas
Dos presentes poemas
Nas situações actuais,

Não mais é uma prisão
Mas tenho apego à casa,
Vivi lá por tantos anos
Curei tantos desenganos
Que é a minha tábua rasa,

Sei dos móveis, as madeiras
Os cheiros e as texturas,
Das matérias existentes
Naquela casa e entrementes
Há lampejos de loucuras,

Recordações do meu pai
Completamente perdido,
Vivendo no seu universo
Um quadro mais que perverso
Que foi por mim assistido,

Mas há lá boas lembranças
De felicidades sem par,
Infâncias de brincadeira
Em que a alegria era a primeira
A chamar-me para brincar.

29-9-2011

Esquizopoesia

Tenho vários eus comigo
Registos de consciência,
Frequências onde se regista
Cada uma em sua pista
Com infinita competência,

Mas no fim sou só um
Tenho muitas facetas,
Encarno personagens
E do actor as imagens
Vêem do passado directas,

Quando em vários papéis
Desde refugiado barbudo
Com radicais posturas,
A polícia em várias alturas
De um pouco, fiz tudo,

E até antes na poesia
Vários escreviam em mim,
Uns de falar arrebatado
Outros dum mais ponderado
Filosofar sobre o fim,

Mas tudo se resumiu
Ao eu que escreve agora,
E se outrora fiz pouco
Das manias de um louco
Também eu vou por aí fora…

19-6-2019

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Sinusóide

A minha vida tem sido
De cariz sinusoidal
De ciclos e períodos
Numa cadência natural,

Travessias no deserto
Subidas à montanha
Passeios pelo bosque...
Mas a cidade é tamanha,

Que tudo abarca às vezes,
E restringido ao citadino
Sou mais uma das reses
No redil do desatino...

Mas isso faz-me recordar
Passos da vida de menino
Cheiros, tons, sensações
Que senti em pequenino,

Que vêm agora minorar
Dúvidas que me assaltam
E motivos para isso, ciente
Estou de que não faltam,

Mas algo me diz no ar
Algo transpira magia
Que diz que não faz mal
Está para chegar o dia...

Mas eu sei, esse dia
Tenho eu de o fazer
Muito que trabalhar
E obstáculos a vencer,

Os entraves são muitos
Uma obra conseguida
Parece tirada a ferros
Renitente, coagida...

Nunca atingindo
O objectivo final
Poder viver a respirar
Um novo ar matinal,

Que não tenha poeiras
Da travessia do deserto
E com alguma ajuda
Esse dia estará perto,

Quero dar a mim mesmo
A minha prenda de anos:
Mostrar a toda a gente
O quanto somos humanos...

20-10-2019 - 15.15

O Medo

Fechei a porta da rua
Estava só em casa,
Passeei de cigarro na mão
Nunca a vira tão nua
Tão cheia de solidão,

E o tic-tac do relógio
Batendo sem parar
E eu a escrever
A escrever para não chorar...

Sim! Choraria
Que diabo, sou um homem
Mas os meus olhos também comem
O sabor da companhia!

O silêncio da casa
Tão diferente do que eu pensava...
Austero
Diabólico
E eu de escrever não parava...

Vieram-me à memória
Histórias das almas do outro mundo
Tão velhas, tão faladas
Vinham lá mesmo do fundo...

E o tic-tac sempre...

Apeteceu-me cantar
Cantei
Mas aquela canção...não sei...
Encheu-me de raiva e de medo
Gritei para apagar aquele silêncio mortal
Mas não tinha mais ar...
Nem vontade de gritar...

Calei-me, olhei,
Sorri, pensei...
Ah! o que a imaginação faz...
Mas um papel que então caiu lá atrás
Calou-me a solução...

Vi-me na situação
De ser ou não ser,

E provei que sou normal
(ou pelo menos mortal),
Pois se não ouvisse então na porta
A chave da minha mãe
Vestia o casaco a correr
E ia-me embora também!


1974

domingo, 27 de outubro de 2019

Leva

São todos meus irmãos
Filhos da mesma leva
Da altura em que nascemos
Inconscientes da treva,

Passado todo o tempo
Que temos até agora
Só alguns de nós restam
Foram-se os outros embora,

Por isso os noto ao passarem
Da leva os que ainda restam
Olho para mim, sou um deles
As minhas cãs o atestam...

24-9-2019 - 08.15

Demência

Querem saber da demência?
Saibam que a conheço bem
Vi-a aniquilar o meu pai
E convidar a minha mãe…

Como tive que a conhecer bem
Posso dizer que a demência
Não se trata de uma presença
Mas, ao contrário, duma ausência,

Uma ausência que se nota
Na consciência perdida
Noutros lugares e mundos
Mas malgrado nesta vida…

Não é um agente que ataca
Mas algo que está em falta
Querendo tratar o inexistente
A taxa de insucesso é alta,

O corpo enfraquecido
Pela degradação da mente
Obedece, mas sem tino
Às tarefas do antigamente,

E assim todas as acções
Carecem de fundamento
São ordens que o ser dá
Desconexas ao momento,

Gestos que vêm do hábito
Que continua a ordenar
Que se repitam os passos
Da operação a realizar,

Mas tantas são as lacunas
E muitas as áreas vazias
De velhas glórias já idas
Medalhas de áureos dias,

Fica tudo tão confuso
Que não se logra perceber
Razão nos disparates todos
Que persistem em fazer,

Mesmo procurando sempre
Não a conseguimos achar
Talvez porque já lá não está
Foi com a demência voar...

E torna-se inútil continuar
A tentá-la compreender
A demência não se abrange
E ficamos sempre a perder,

O tempo, a paciência
E a vontade de saber
Duma panaceia eficaz
Para a demência resolver,

Mas tal coisa não existe
Pois não se pode tratar
A consciência perdida
E a noção de assim estar,

Vi isso à minha frente
Vezes e vezes, sem conta
Pois do nó embaraçado
Já está perdida a ponta,

É o acesso à memória
Que se mostra bloqueado
A demência corta os fios
Que ligam ao registado,
 
Já não sabem quem são
E a família desconhecem
Parece que da vida a noção
Continuamente esquecem,

E o que será a demência?
Que nunca foi explicada:
Talvez seja a derradeira luz
No humano forno apagada…


2-9-2019 – 07.45

Agulha e Linha

Aqui estou a coser
E já a fazê-lo vinha,
Ainda não tenho dedal
Mas até nem faz mal
Pois tenho agulha e linha,

Já apliquei uns botões
Num casaco precisado,
E não me custou nada
Até curti a empreitada
E fiquei mais descansado,

Recuperei uma mochila
Que alguém já não queria
Tinha descosida uma alça
Pois a costura era falsa
E sem hesitação cosi-a,

Correu tudo muito bem
Fiz como via fazer,
A minha mãe custurava
A minha avó acabava
E eu aprendi a coser,

Passava-se tudo ali
No quarto da minha avó,
Laboratório de roupas
De modas às vezes loucas
Desde a minha bisavó,

A moda da saia travada
Cingia as vampes no andar,
Tinham os joelhos unidos
E só com esforço movidos
Com a bainha a apertar,

Eu e o meu pai ríamos
Da moda da saia travar,
Saltos altos que se partiam
E donzelas que caíam
Sem se poderem levantar...

Os segredos da costura
Estavam à minha vista,
Passava noites em branco
A ver a minha mãe no banco
No seu mister de modista,

E agora que já sou velho
Resta-me esta mania,
De fazer como via fazer
Pois com modistas viver
Confere esta sabedoria.

5-6-2019