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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Ruas da Cidade

Já no vale do Indo
Há mais de 5000 anos
Se tratava dos esgotos
E as casas tinham canos,
 
Depois com os Romanos
A cloaca funcionava
E canalizando os dejectos
No meio da rua passava,

Veio então a Idade Média
E nas ruas uma porcaria
Dos animais e pessoas
Todo o esterco lá caía,

Chegou depois a Renascença
Mas nada de saneamento
E a logo a seguir o Barroco
Com um cheiro pestilento,

Surgiu a Idade Moderna
E novas maneiras de ver
Mas a ausência de esgotos
Mantinha as ruas a feder,

E chegamos ao dia de hoje
Com as modernas cidades,
Arranha-céus e viadutos
Tubagens e oleodutos
Muitos carros e vaidades,

Onde os passeios empedrados
Com os símbolos da cidade,
Estão de merda salpicados
Como se fossem pintados
Numa enorme sujidade,

As casas já têm sanitas
E ninguém pensa em obrar,
Nos passeios e nas ruas
Mais a mais a expensas suas
Pois há multas a aplicar,

Mas quem nas ruas andar
E não olhar para o chão,
No seu caminho pisando
Vai sem saber levando
De presente um cagalhão,
 
Chega a casa e na alcatifa
Já cheia de ácaros e pó,
Pululam novas bactérias
Arrastadas para férias
Em grande forróbódó...

E depois vem o rebento
Que aprendeu a gatinhar,
Correr risco de infecção
Esfregando as mãos no chão
Para na boca as ir lavar...

Ao ver tudo isto agora
Os Romanos imperiais,
Com as suas togas cobertos
Ficariam boquiabertos
Com estes costumes boçais,

Afinal de que valem esgotos
Manilhas, canalização
Para viver a paredes meias
Com as ruas todas cheias
De merda, só que de cão,

Assim nem vale a pena ter
Escrúpulos por aí além,
Numa decisão brava
Manda-se a ética à fava
Caga-se na rua também!

Agachar-se entre dois carros
E satisfazer a natureza,
Das precisões santas
Mais uma vez entre tantas
Não vai fazer mal com certeza...

Tanto trabalho para nada
Tantos estudos e projectos,
Para viver nestas cidades
Monumentais cavidades
Conspurcadas de dejectos,

Mas quando se chama a atenção
Costumam gritar em defesa,
Que nem parecemos humanos
Que de animais não gostamos
E será por isso, com certeza,

Que não queremos aceitar
Que na rua os cagalhões,
São tanto factos da natureza
Como sentar-se à mesa
E entalar os colhões...

21-3-2002

Do Negrume

Vós que agora nasceis
Prestai bem atenção,
Nós também sonhámos
Nós também pensámos
Vencer por ter a razão,

Que tudo íamos mudar
Com essa força a crescer,
Quando a gente lá chegasse
Quando a gente se sentasse
Nas cadeiras do poder,

Mas os chefes do mundo
Magnates desconhecidos,
Há mil anos instalados
Não querem ser afastados
Estão muito bem protegidos,

Os ministros das nações
Por eles manipulados,
Em todas as leis que fazem
Muitas benesses lhes trazem
Por terem sido nomeados,

De geração em geração
Aperfeiçoando o esquema,
Eis que a ciência avança
Aperfeiçoando a matança
E resolvendo o problema

Que o povo lhes levanta
Cada vez que acordando,
Do programado torpor
Vê com espanto e horror
O cerco mais apertando,

Todo o dinheiro do mundo
Às mãos lhes vai parar,
E as migalhas que oferecem
Nunca delas se esquecem
Como imposto as vão buscar,

Notai bem os impérios
Erguidos na escravidão,
Pelas armas e com guerras
Vão roubando as terras
E instalando a servidão,

Vós que agora nasceis
Lutai por daqui partir,
É um mundo de má sorte
Assombrado pela morte
Sem esperança de sair,

Passai sem deixar marcas
Deixai tudo como está,
Para outros descobrirem
Que o melhor é fugirem
Pois esperança não há,

É um colégio interno
Uma prisão exemplar,
Um sítio de sofrimento
Onde o maior tormento
É pela morte esperar,

Os anos que vão passando
Com o dia a dia cansado,
Pouco a pouco enfraquecem
Os novos que envelhecem
A cada projecto adiado,

Quando já tarde a verdade
Acaba por se descobrir,
É tarde para mudar o passado
E com o futuro programado
É impossível fugir…

20-1-2006

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Pressentimento

Tenho vindo a pressentir
Que o tempo está a acabar,
Para este mundo novo
E a este pobre povo
Que restará almejar?

Do que falam dia a dia
Que haverá para dizer?
Quem estará interessado
No novo banco privado
Quem o nome quer saber?

Uma profunda mágoa
No entretanto me assola,
Ver tanta gente levada
A continuar enganada
Nesta vaga que enrola,

Antes tapar os olhos
A ver o que é doloroso,
O mundo inteiro curvado
Sob o peso do mercado
Num sacrifício penoso,

Pois quem gostará de ver
O que só lhe causa dor?
E que se poderá fazer
Para impedir o poder
De propagar o terror?

Pondo a pata em cima
Olham depois a sorrir,
E se notam desagrado
Um exército treinado
Logo a correr há-de vir,

Mas essa tal liberdade
De que dizem fazer questão,
Tantos mortos vai deixando
Que acaba por ir escavando
Os caboucos da escravidão,

Que é mesmo o objectivo
Destes torpes governantes,
Impecáveis engravatados
São tiranos disfarçados
Da servidão apoiantes,

E no dia a dia a batalha
É tão clara quanto a luz,
Pois a direita disfarçada
De eficiência trajada
As débeis mentes seduz,

E já ouvi mais de uma vez
Quem o Salazar detestou,
Esses tempos recordar
Com saudade e desejar
O tempo que já passou....

E confundir a nostalgia
Da juventude que perdeu,
Com a política da altura,
O regime da ditadura
Que outrora combateu,

Se no fim a adulação
Deixar de fazer sentido,
Declararão que afinal
Tinham percebido mal
E havia um mal entendido...

É colossal ingenuidade
A crença que a bajulação,
Alguém poupa da desgraça
De um governo que ameaça
Com duas pedras na mão,

Era melhor que atentassem
No exemplo fornecido,
Escusam de os adular
E de tentarem amaciar
O coração empedernido,

Cada atitude que tomam
Feita para os beneficiar,
Tem como paga a afronta
Que é tomar-vos de ponta
Para a seguir vos rebaixar,

Enquanto existir alguém
A apaparicar o patronato,
Eles terão sempre na mão
Um traidor e um espião
Para lhes encher o prato,

Quem não sentiu ter ouvido
Nos confins da memória,
Que se não fosse o coração
Só reinava a escravidão
E a pobreza obrigatória?

Porque exigem ao povo
Pobreza e honestidade,
Se nas extorsões que praticam
É a Mafia que imitam
Na sua operacionalidade?

A conveniente conclusão
Desta elite governamental,
É que qualquer oposição
À sua hostil dominação
É o terrorismo global...

Mas já quando invadem
Espezinham e exploram,
Deixou de ser terrorismo
É um salutar progressismo:
Uma gulodice que adoram!

Em cada dia que nasce,
Um novo trunfo na manga,
Em cada lei promulgada
Uma extorsão programada
Um novo ferro na canga,

Nem o facto da morte
Também por eles esperar,
Os leva enfim a reflectir
Só o impune extorquir
Os incita a governar,

Quando à noite se deitam
Para no sono mergulhar,
Adormecem embalados
Pelos tilintar dos trocados
Que conseguiram roubar...

Apoiados pelos magnatas
Que os levaram ao poder,
Pensa o povinho iludido
Ter votado no escolhido
E que vota em quem quiser,

Mas a ementa é limitada
Aos cadernos eleitorais,
Só é eleito quem promete
Ajudar quem o lá mete
A roubar ainda mais,

A evidência ninguém vê
De inacreditável vestida,
A vida inteira a maltratar
É o que chamam governar
Nesta Terra entristecida,

E para mostrar uma imagem
Do que eles na verdade são,
Este ano dos fogos florestais
Nem notícias nos jornais
Nem imagens na televisão,

Mas não é por haver falta
De fogos e incendiários,
É a censura e a manipulação
Imperando na televisão
A mando dos torcionários,

Que acharam uma solução
Para constar dos compêndios:
Depois de tudo queimado
Pode o povo estar descansado
Não haverá mais incêndios!

Haverá sim muito alcatrão
Muito betão e relvados,
Campos de golfe gigantes
Os “greens” deslumbrantes
Para turistas endinheirados,

Como temos água de sobra
Mesmo na época alta,
Podem-se regar os relvados
Até ficarem ensopados
Que não nos vai fazer falta...

Para o povo português
Nem uma réstia de bonança,
É olhar para a sua vida e ver
Um buraco negro a crescer
No seco vaso da esperança...



  29-6-2006

Do Patronato

O arquétipo Patronal
Com o seu lema - Explorar!
Da antiguidade oriundo
Depois de olhar o mundo
Resolve por fim discursar:

- Já sabem todos quem sou
  mas prestai bem atenção:
  esquecei o vosso dinheiro
  pois cheguei aqui primeiro
  e já de espada na mão,

- Não me amedrontam as leis
  pois foram feitas para mim,
  e aqueles que as fizeram
  de joelhos aqui estiveram
  jurando todos que sim,

- Que me prestam vassalagem
  e espero que isso aconteça,
  pois daqui saíram tementes
  mansos e subservientes
  e conservando a cabeça…

- Não me assusta o sangue
  nem me demove a dor,
  estou aqui para vencer
  e vai saber quem perder
  quanto vale um ganhador!

- Mando por obra e graça
  deste mundo onde vivo,
  a minha arma é o dinheiro
  qual virotão de besteiro
  silencioso e furtivo...

- Vossas vidas serão minhas
  e vivereis como eu disser!
  Em vossas casas o pão
  será luxo e ostentação
  e não o terão, se eu quiser,

- Perdei todas as esperanças
  de um dia viver melhor,
  pois eu detenho o poder
  de vos deixar sobreviver
  a recear sempre o pior,

- De ora em diante o Patrão
  mandará absolutamente,
  podem afastar-se de mim
  mas sentirão sempre por fim
  a escravidão da corrente,

- Que a mim vos prende
  e não vos vou libertar,
  sei que vos estou a dever
  e para esse dinheiro obter
  havereis de me suportar,

- Já vos roubei tanta vez
  E foram tantas as afrontas,
  que tudo o que vos pagasse
  receio bem não chegasse
  para equilibrar estas contas...
 
- É essa dívida mágica,
  esse “vosso” que eu guardo
  que vos faz prisioneiros
  desses míseros dinheiros
  que carregais como fardo,

- Se a liberdade quiserem
  e essa corrente cortarem,
  vosso dinheiro perdereis
  pois nunca mais o vereis
  enquanto por cá andarem,

- Está lá nas minhas contas
  É o meu trunfo para jogar,
  precisais dele para viver
  e será então que vamos ver
  se conseguireis aguentar,

- O tempo que a lei me dá
  para pagar os ordenados,
  os subsídios já retenho
  e há muito que vos venho
  a manter bem enganados,

- Quero, posso e mando
  e nada podeis fazer,
  a não ser queixas a quem
  como bom filho da mãe
  tudo me deixa fazer.

 

  19-9-2006

Analogia

AS TELENOVELAS SÃO COMO AS DEFECAÇÕES; A PRÓXIMA É, REGRA GERAL, PRECEDIDA PELA ÚLTIMA.


26-1-1995

Skating All Day

Concordo que o som que atroa os ares é soberbo. Algo entre os treinos dos hoplitas gregos e as lutas dos mirmilões romanos misturado com martelos elétricos. Brilhante.

Deve impressionar as teenagers e os mais novos que almejam conseguir esse estatuto.

Mas na verdade, isso não passa de uma grande merda. Não se extrai daí nada. Os saltos e piruetas irão ser relegados aos confins da memória como um mau bocado que passou.

As luxações e os entorses, as nódoas negras e as mazelas devem ser mais atribuídos ao Karma que à má execução. Que fazem esforço, fazem. Dão o litro. Horas a fio num ordálio de erros e falhanços, cujo semblante, cabisbaixo, acentuado pelo cabelo comprido que tomba sobre os olhos, traduz bem um treino quiçá olímpico, hercúleo, que só almas involuídas e materialistas reprovariam.

A parte espúria e incongruente é que isso não passa de um hobby, do qual vocês fazem uma religião, pois não querem ter nenhuma, e ,mais uma vez, quem paga são os outros, as pessoas, que têm de vos aturar o barulho e supostamente compreender a vossa incompreensível atitude.

É desta forma que antes do jantar vocês resolvem lançar a vossa juventude de 80 e mais quilos em saltos e quedas, mais dignos de pavilhões do que de arcadas.

Não esperem agradecimentos. Se vocês actuassem em pavilhões eu pagava para não vos ir ver e ainda mais para não vos ouvir, coisa que já faço, sem ter sequer encomendado o sermão, nem pedir entrega ao domicílio. 

Espero que ao se exibirem, preferivelmente nos espaços apropriados, que as autarquias têm tão graciosamente disponibilizado, acompanhem as evoluções com hip-hop e música electrónica. Fica tudo junto e desta forma, face ao mundo de hoje em dia, é uma poupança relevante.

Continuo a ouvir-vos a tentar conseguir as voltas e piruetas que vos podem guindar aos píncaros dos campeonatos, mas, como já disse, eu nunca contribuiria para isso pois a minha maior ambição é deixar de vos ouvir por um largo período de tempo, se possível até ao resto dos meus dias.

Espero que encontrem outros lugares onde expandir a vossa energia em excesso, mas espero que tomem cuidado se forem para o campo: a fauna deve gostar tanto das vossas exibições e consequente ruído como já demonstrou apreciar os vossos colegas das raves selvagens, desaparecendo pura e simplesmente. 

Nada se lhes pode apontar. Depois de milhões de anos sem estes incómodos, a fauna portuguesa viu-se forçada a verificar a inutilidade do velho ditado “a velhice é um posto”. Chegaram agora os que pretendem “ajudar a natureza”.

Hoje, cá estão de novo. Desta feita chove. Na rua. Os desportistas acoitam-se nas arcadas exercendo o seu mister com descrição e rigor; “nada de brincadeiras, o assunto é sério e como tal deve ser tratado” na regie calculam-se as trajectórias, definem-se estratégias e nota-se no ar um cheiro a novidade; várias pessoas saltam em skates tentando ultrapassar obstáculos que eles próprios criaram: notável!

Como devem calcular, as portas abriram-se e os residentes na Av. Almirante Reis, entre os Nºs 74 e 80 saíram para a rua aplaudindo tão emérito evento e agradecendo aos céus a oportunidade de poder acompanhar o jantar com uma sessão de estrondos em vez de uma sessão de notícias (também elas muito incomodativas), pois será difícil ouvir os jornalistas a falar quando periodicamente um atleta de 94 kilos resolve aplicar todo o seu peso num salto acrobático-idiótico que dificilmente poderá concretizar.

Com certeza que os vossos pais que vos compram os skates de último modelo são da camada média-alta da sociedade. Poderiam reunir-se em associação e adquirir um terreno, se possível remoto e isolado onde, com a ajuda de fundos comunitários, instalariam um campus desportivo “skático” de características olímpicas.

Não nego uma eventual participação portuguesa nas competições internacionais e mesmo a possibilidade de Portugal arrecadar algumas medalhas nesses opens e meetings o que não seria despiciendo, mas também não posso negar um certo interesse pessoal especialmente no que toca ao isolamento e distância do referido complexo, o que muito contribuirá para o descanso e paz de espírito não só meu mas também das vítimas englobadas no raio de acção deste fenómeno, que não são assim tão poucas, já que os ouvidos, ao contrário dos olhos, não possuem pálpebras que se possam fechar.

Mas podemos ir mais longe. A fraca gravidade lunar proporcionaria a estes atletas uma considerável expansão de horizontes. Confiemos que os grandes consórcios ligados à cosmonáutica turística tenham a abertura de espírito necessária para reconhecer no skating uma aposta firme no futuro e como hoje em dia o mercado tomou o freio nos dentes vamos a ver que tal se sai a andar de skate.

Em Plutão preferívelmente.

24-9-2012

Receita Duvidosa

Quando a doença vem da acção dum vampiro é difícil acreditar num médico que recomenda uma sessão de sanguessugas...

Entidades Empresariais

Essas entidades infernais a que se chama empresas
nunca poderão substituir a luz do sol, o marulhar do oceano e enfim
todas as coisas simples da vida a que são completamente alheias, e adversas.

Inventadas por seres ambiciosos que há muito deixaram a face da terra
mas cujo testemunho passaram à estirpe a que chamamos empresários
um legado genético pernicioso de funestas consequências.

Continuam a estender a sua nefasta influência neste planeta massacrado
impunemente produzindo venenos inimagináveis a partir de outros letais.

Rasgando as entranhas da terra para extrair o ouro de que se alimentam abandonam as feridas como um toureiro que deixa o touro na arena após a estocada final, pronto para mais uma lide.

Essas entidades sem existência real, baseadas na burocracia, dominam o mundo actual como se herdeiras fossem da existência humana.

Virtuais e como tal efémeras, surgem tão depressa como desaparecem deixando o rasto de miséria que é seu apanágio e imagem de marca.

Criadas por seres que pouco ou nada têm de humano, não poderão nunca aspirar a uma existência real pois o papel arde deixando apenas cinzas.


Que razões assistem a este culto actual a estas entidades perigosas e tenebrosas cujos benefícios nunca conseguem cobrir as desgraças que provocam e programam?


2004

Big Brother

Todos nós sabemos mais ou menos do atraso do nosso país em relação aos nossos parceiros europeus e é voz corrente que vivemos num país atrasado, marcado pelas vicissitudes da história, acorrentado aos esquemas arcaicos e à mentalidade bacoca herdada de outros tempos. Mas afinal (graças a Deus) isto não é verdade.
Não é verdade e a realidade é, felizmente, precisamente o contrário!
Descobri um dia destes que vivemos afinal num país evoluidíssimo.
À nossa volta pululam sociólogos e psicólogos, gente de horizontes amplos, todos eles analisando os reflexos condicionados e o comportamento uns dos outros, classificando-os e enquadrando-os em diversos organigramas, evoluindo assim para uma humanidade mais apreciadora das coisas verdadeiramente importantes da vida como a espionagem e o “voyerismo”. Maravilhoso!
E eu a julgar que a maioria das pessoas se estava positivamente “marimbando” para esses assuntos do foro académico e afinal era mentira.
Com o advento do programa “Big Brother” saíram do armário os talentos científicos que a população portuguesa vinha há tanto tempo ocultando sob a capa da bisbilhotice e do cretinismo.
Afinal era eu que estava errado, confesso.
Nunca me passou pela cabeça que os telespectadores deste programa não fossem mentecaptos mas sim observadores atentos do comportamento individual (psicólogos) e analisadores exaustivos dos fenómenos sociais (sociólogos).
A primeira vez que dei por este fenómeno foi à meia-noite de uma quarta-feira.
Não queria acreditar mas era verdade, as televisões nos prédios, transmitindo em altos berros as conversas das cobaias não eram afinal indícios de idiotia e imbecilidade mas sim autênticas aulas de comportamento humano, sempre comentadas por uma ilustre académica, dignas de qualquer anfiteatro universitário, e os comentários no dia seguinte às atitudes e conversas das ditas cobaias não eram (como eu pensava inocentemente) baboseiras absurdas sobre assuntos idiotas mas sim verdadeiras permutas de informação entre cientistas tal como as observamos nos corredores das universidades! Fenomenal!
Foi então que notei que estas aulas são, pasme-se, grátis! Um espanto!
Temos que agradecer à estação de televisão promotora desta iniciativa tão louvável!
E agradecer não chega, temos que participar nesta aposta no futuro da sociedade e do país pois todos juntos não seremos demais.
Uma câmara de televisão em cada casa será o meio necessário para provermos de material de estudo todas as pessoas que pretendam dedicar-se a esta actividade tão cativante.
O futuro promete mas o presente arrepia já caminho a passos largos.
Podemos já imaginar a D. Gertrudes tomando apontamentos sobre o comportamento alarve do Sr. Antunes à mesa, com vista a elaborar uma tese, enquanto a câmara instalada na casa da dita senhora permite à D. Gabriela elaborar um gráfico sobre as actividades mictórias da mesma. Admirável mundo novo!


21-11-2000

National Health Service for Animals - Lesson #2 - The Monitor Lizard

Due to recent developments in the communication transducers it is now possible to render reptile Jacob’s organ inputs into human conversation. We’re very sorry for that.

- Calling Monitor Lizard #8945, consulting room 12, Monitor Lizard #8945, consulting room 12.

- Good afternoon Mr. Varanus. What can I do for you?

- Well, it’s a plain matter that brings me here…

- If you’d be so kind as to explain it…

- Humans no longer horse around through the African plains. We no longer have the pleasure of hunting one of your kind and feast like we used to. Worst: You come with with your large caliber rifles that don’t miss and jeeps which are faster than we are. It’s a pity we no longer live the life we used to...what happened?

- The truth Mr. Varanus, is that humans are no longer willing to be eaten half-alive by your venomous saliva bite. Things like those belong to the past. Now, you’re frightened by us and not the opposite...

- But what about our rights? You have given us hope with this NHSA thing and now it is clear nothing has really changed the way you treat us. Can you do anything about it Doctor #65834215?

- I’m afraid not Mr. Varanus. Things were updated in a sense aiming to protect humans instead of lizards...there’s in fact nothing I can do...I am sorry…

- You are sorry? What about us, lizards? We are animals too, you came up with this NHSA to deal with animal illness problems, and here I am, presenting you one!!!

- Mr. Varanus, listen, you’re not sick, your case regards relationships between Kingdoms and not healthcare issues...I’m sure you can understand this…

- I know, I know...but you know, we miss the old times when you ran like hell from us...we miss those days. And that is rather depressive…we roam around our hunting ground only to hunt rats, rabbits and little more...depression is weakening our zest for life...can you understand?

- I understand. I will issue a form for you to fill in and present it to our Herpetopsychiatric Department. In compliance, I’m sure they will provide you with the right medication for your condition.

- Thank you very much Doctor #65834215. Good afternoon.

- Calling saltwater crocodile #3734596 consulting room 8, saltwater crocodile #3734596 consulting room #8...

National Health Service for Animals - Lesson #1 - The Cockroach

Due to recent developments in the communication transducers it is now possible to translate insect feeler touches into human conversation. We’re very sorry for that.

LESSON NR. 1 – The Cockroach.


- Calling Mrs. Cockroach # 373.865⁹!!!!, consulting room 7, Mrs. Cockroach # 373.865⁹!!!!, consulting room 7!!!

- Good morning.

- Good morning Mrs. Cockroach, what seems to be the problem?

- You!!!!

- ????How come?

- We are being slaughtered by the millions, namely our sisters from the sewers. They are subject to mass murder by you, humans! What can you do about this Doctor #74596874?

- I’m afraid there’s nothing I can do about it. As a matter of fact the Human Kingdom has been fighting against insects since the beginning of mankind...it’s a matter of survival you see…

- But nowadays you created this NHSA and we are animals! How can you say that?

- Mrs. Cockroach, you must try to understand our point...you’ve been evoluting for hundreds of million years, while we humans are new to this planet...we must struggle to survive, no matter what…

- ...That is, your “no matter what” means that you’re trying to exterminate us so you can finally conquer the world!

- Precisely. It is undeniable...it’s a part of our common human heritage to survive among other species...I’m sure you understand this…

- In fact, I do, but since you created the NHSA things have changed, drastically. Both our Kingdoms are before a brand new approach to this issue...don’t you think?

- That, Mrs. Cockroach, is not that simple...if you suffered from some kind of disease our entomotherapists could in fact help you with that, but at a planetary level such as you have proposed, the matter is out of our hands…

- So, you’re telling me you’re not going to do anything about it?

- Affirmative. You’ve made your point and I have explained ours…

- Thanks, for nothing!

- Good morning. See you in any garbage bin of your choice. Have a nice day.

- Calling Mr. Praying Mantis #876857647² consulting room 5, Mr. Praying Mantis consulting room 5!!!

domingo, 27 de outubro de 2019

Urânio Rico vs Urânio Pobre

Muito se tem falado sobre o enriquecimento do urânio. Que o Irão possui centrifugadoras para o fazer; que a Coreia do Norte também e que até podem mandar enriquecê-lo noutros países ou adquiri-lo já enriquecido, enfim que no mundo existem lugares onde se enriquece urânio. Como é óbvio a procura do enriquecimento está em alta e a oferta limitada pois só uma pequena faixa de possui a tecnologia e o "know how" para o empreendimento.
Portugal desta feita está na mó de baixo; tem jazidas de minério mas já não exploradas. Ora se não o tem não o pode enriquecer e se o tivesse não poderia fazê-lo. Nem pensar!
Mas como a história nos demonstra, os ciclos repetem-se e o carro continua a sua perpétua carreira. Outros tempos virão e, mais cedo ou mais tarde, esta febre de enriquecimento do urânio dará por certo lugar à procura do seu empobrecimento. Tal como as modas se vão repetindo ao belo sabor dos estilistas também estas coisas dos mercados são cíclicas e alternam entre períodos de procura e oferta e é precisamente essa a estratégia a seguir aguardando pela procura do empobrecimento do urânio.
Será nessa altura o momento oportuno de Portugal lançar o seu maior trunfo:
Puxando pelos seus pergaminhos a classe política portuguesa terá uma chance de ouro para realizar aquilo que anda há tantos anos a prometer fazer: contribuir de modo efectivo para a riqueza do país (do país, note-se bem, o povo ficará pobre como está pois nem as mais avançadas tecnologias de centrifugação podem fazer alguma coisa por ele), executando uma tarefa para o qual estão especialmente vocacionados e preparados. Especialistas como são nesta matéria do empobrecimento, os governantes portugueses estão por certo à altura dessa hercúlea tarefa que já se divisa num futuro não muito distante. Não será fácil cremos. Um urânio enriquecido ganhou novo estatuto na Tabela de Mendeliev e não será com duas cantigas que irá abdicar das suas prerrogativas e primazias. Sabemos bem das dificuldades que sempre acarreta lidar com substâncias como os elementos pois, ao contrário de muitas outras coisas, são muito persistentes na sua natureza e é muito difícil enriquecê-los e ainda mais empobrecê-los. Estamos no entanto convencidos que os governantes portugueses não se deixarão enternecer ou compadecer com naturezas rígidas, firmezas de carácter ou hábitos já adquiridos pois, como é do conhecimento geral, a experiência tem-nos feito sentir cabalmente na pele o seu grau de assertividade e determinação no empobrecimento da população, sem vestígios de compaixão ou carinho.
Como diz um velho provérbio japonês "O vento não espera que a árvore se dobre" e a classe política saberá com certeza soprar o vento da miséria sobre o urânio enriquecido com o mesmo fôlego e denodo com que há muito vêem bafejando quase que a totalidade da população portuguesa (pode ter-se esquecido e por isso vimos lembrá-la). Acontece que existe a pobreza material, emocional e espiritual. Para se atingir a pobreza material é também necessário atingir as restantes, como garante de que o objecto de empobrecimento não voltará a erguer a cabeça.
Eis alguns tópicos para obter a pobreza material:
- Não o aumentem durante 10 anos, deixem a inflação espremê-lo, façam-no trabalhar horas extra sem receber, criem novos impostos ou aumentem os existentes, de seguida deixem de lhe pagar e façam de conta que está tudo bem testando desta forma o grau de sucesso das medidas tomadas. Por fim ponham-lhe à frente a carta demissão e se ele não assinar ameacem-no com processos disciplinares e mesmo castigos corporais.
- Ou pura e simplesmente retirem-lhe todas as possibilidades de arranjar um emprego.
Para obter a pobreza emocional:
- Façam de conta que não existe ignorando-o por completo umas vezes e depois impliquem com ele noutros dias. Falem-lhe com "duas pedras na mão" ponham-lhe a auto estima no mínimo, tentem convencê-lo que a razão para o seu calvário é da sua inteira responsabilidade ou ponham-no num gabinete sózinho sem nada para fazer.
Para obter a pobreza espiritual:
- Preocupado com a sua situação, o urânio em empobrecimento não terá tempo ou paciência para se debruçar sobre assuntos mais elevados, como as grandes questões da humanidade, a vida e o seu sentido ou a busca espiritual de novas crenças e concepções. Bastará garantir que a sua atenção incida apenas sobre as suas malapatas e como escape dêm-lhe, futebol, fátima e fado.
Se mesmo assim o obstinado urânio enriquecido se mantiver fiel à sua estrutura atómica e não se se deixar empobrecer, podem sempre pôr a Polícia ou mesmo as Finanças a persegui-lo. Moam-lhe o juízo com registos e inscrições em diversos sites governamentais com prazos a cumprir e sanções administrativas.
Como pano de fundo deste processo bombardeiem-no com publicidade a vários níveis; televisão, rádio, imprensa, outdoors e por telefone diáriamente a várias horas do dia ou mesmo às 10 horas da noite. Encham-lhe a memória de complexos processos judiciais, tenebrosos casos de polícia e emaranhadas questões macro-financeira que o ultrapassaam, sempre com o jargão ininteligível da economia. Exijam-lhe atenção para as crianças desprotegidas, as mulheres maltratadas, a pedofilia, o crime organizado, a guerra; a diabetes, o colesterol, a tuberculose, o cancro da mama, a obesidade, a ejaculação precoce, a flatulência, a infertilidade e a caspa e façam-no crer que os problemas nacionais, ambientais, mundiais, as tatuagens, o grafitti a situação na Venezuela e a má época do Sporting carecem de um nível mais alto de vigilância.. Em estado de alerta constante, sem saber donde elas vêm e com tanta pedrinha no sapato, temos a convicção que o urânio enriquecido não terá já a clareza de espírito para se aperceber do logro em que caiu e não encontrará outra solução senão abdicar da sua riqueza, na esperança que não o chateiem mais ou que pelo menos lhe deixem os electrões em paz por uns tempos e, certamente, muito lamentará ter sido enriquecido. Se por acaso o urânio em fase de empobrecimento pensar que ainda tem algumas hipóteses de voltar a ter uma existência normal, dêm-lhe a entender que isso está fora de questão da forma elegante que costumam utilizar. No estado a que se chega durante o processo de empobrecimento as defesas ficam em baixo e com os constantes sobressaltos que a comunicação social tão bem instila diáriamente na mente popular, não demorará muito até que o urânio enriquecido tenha finalmente empobrecidol a ponto de ter de conviver com elementos menos ricos como o ferro, o chumbo ou mesmo o intratável antimónio e irá comparecer no Centro de Emprego quinzenalmente para regulizar a situação como toda a gente. Não será difícil antever o estado do urânio empobrecido em Portugal. Sem um cêntomo no bolso, com uma neura das grandes, pouco lhe restará para fazer do que ler os jornais gratuitos, discutir futebol ou concorrer aos concursos da televisão. E porque não há-de resultar com o urânio enriquecido? Resultou conosco.

Catástrofe 2000

Corria o ano de 2000 quando dois acontecimentos concomitantes abalaram o país e fizeram estremecer os alicerces da nacionalidade.

Os treinadores das equipas de futebol do Benfica e do Sporting abandonaram os lugares, um mandado embora, qual cão vadio e o outro saindo a seu pedido, impedindo as equipas de jogar.

A opinião pública, dominada por forças incontroláveis, abanou violentamente.

A protecção civil com os seus escassos meios viu-se a braços com uma situação de emergência para a qual não estava preparada.

O exército, sempre preparado para as mais diversas eventualidades viu-se incapaz de intervir com eficácia, face à hecatombe que se abateu sobre a nação.

Nas ruas, as pessoas choravam, agarradas umas às outras, já esquecidas de velhas questiúnculas, irmanadas no desespero e os cães latiam e uivavam, como é costume nestes casos, emprestando ao ambiente os seus lúgubres apelos.

Nos empregos, os funcionários desmotivados, clamavam pela necessidade de estar juntos às suas famílias, naquela altura difícil e corriam para as suas casas, onde os esperavam as mulheres e os filhos, lavados em lágrimas.

Nos meios de comunicação social, os jornalistas, até então sempre ávidos de notícias frescas, juntaram-se à multidão irada, esquecendo os noticiários, deixando a população na ignorância do que se passava e agravando ainda mais o caos que se tinha instalado.

Com os transportes públicos parados, o abastecimento de água cortado e o insuficiente fornecimento de energia eléctrica, a população experimentou a dureza do clima e a abstinência de futebol.

Nas sedes dos clubes, os dirigentes em estado de choque, estavam incapazes de liderar a horda e a anarquia vigorava qual cavaleiro do apocalipse.

Nunca tal se tinha visto.

Era na época do Natal, mas as pessoas tinham-se esquecido do Pai Natal e do Menino Jesus, da solidariedade e do amor, trocados agora pela incerteza do amanhã e pela possibilidade de interrupção do campeonato.

O governo, assustado pelo ambiente que se vivia nas cidades e pela falta de biombo informativo, declarou o estado de sítio e com ele o recolher obrigatório, que o caracteriza, na tentativa de evitar o vandalismo e o saque, que sempre ocorrem nestas alturas, mas não surtiu efeito pois a maioria dos soldados e oficiais sofria também o impacto dos acontecimentos do momento e juntaram-se à multidão enraivecida que se reunira, aos milhares, nas sedes dos clubes, exigindo solução para aquela gravosa situação que afligia o país.

Numa tentativa desesperada, o governo pediu aos políticos de todos os partidos que tomassem posição e salvaguardassem as instituições, legislando apressadamente uns quantos decretos que possibilitassem ao executivo enfrentar a situação com meios extraordinários, mas também os dirigentes e quadros partidários aderiram à chusma que gritava a plenos pulmões na Luz e em Alvalade.

Nos dias seguintes a situação, longe de acalmar agudizou-se à medida que os boatos corriam céleres; o campeonato ia acabar, os jornais desportivos iam parar as tiragens, a televisão ia deixar de transmitir jogos e programas de grande informação desportiva, enfim, o caos.

As manifestações transformaram-se rapidamente em grandes tumultos que avassalavam as cidades, vilas e aldeias, sem que as forças da ordem conseguissem impor-se, já que o grosso dos seus elementos padecia também da mesma fúria que dominava a multidão.

Tudo parecia convergir para um confronto atroz.

Foi a chuva, que começara entretanto a cair, com a sua democracia molhada, que começou a refrescar os ânimos.

Chovia a cântaros, a meteorologia previu, apressadamente, tempestades e ciclones.

Lentamente, as multidões dispersaram, de volta aos seus empregos e afazeres, os soldados e polícias regressaram aos quartéis, os jornalistas voltaram a fazer noticiários, onde não faltavam os tradicionais biombos informativos, o que muito agradou aos políticos.

Gradualmente, as pessoas começaram a prestar a atenção a outras coisas, nomeadamente aos concursos televisivos e às telenovelas, preenchendo assim como temas mais culturais e sadios, o vazio abissal criado pelo colapso futebolístico.

2000

O Acelerador

Soubemos através da comunicação social da possível construção de um novo estádio para o S.L.B. 
É uma boa ideia convenhamos, mas sem querer ferir susceptibilidades e arvorando-nos o direito de ter ideias, podendo estas resultar ou não, reflectimos sobre o assunto, concedendo-lhe o tempo necessário a que estes assuntos complicados e importantes têm direito, tivemos uma ideia e cá estamos a divulgá-la antes que outros o façam:

No sentido de melhorar a prestação do país no âmbito mundial e de modo a que a nação em peso se consiga guindar ao estatuto que os postulados da actualidade exigem, vimos por este meio fazer a seguinte sugestão:

Substituir a construção do novo estádio do SLB pela de um acelerador de partículas em Lisboa, à semelhança do projecto já existente na Europa central (CERN).
Temos a certeza que os 8 milhões de adeptos do SLB concordarão em absoluto com esta sugestão já que as aspirações intelectuais da faixa de população acima referida se inserem, sem a menor sombra de dúvida, no âmbito deste projecto que ora toma forma.
Extensão a médio prazo do mesmo (ou semelhante) projecto ao Porto de modo a contemplar com verdade e justiça os princípios de sã concorrência de que a cidade Invicta, como é lógico, não irá abdicar, mas também estendendo a ideia a outras cidades, ou seja, descentralizando.
Neste projecto colaborarão adeptos do clube em questão que, quer pelas suas actividades ou pela sua dedicação à ciência em geral e ao futebol em particular se enquadrem no perfil da equipa a operar o equipamento a instalar.
Atribuição do nome das figuras de vulto do futebol português às primeiras partículas a serem descobertas no decurso das experiências a realizar no futuro acelerador i.e. Eusébion, Vilarinhon, Damásion etc (no Porto ; Pinton, Drulovichon, Jardelon etc).
Constituição de um campeonato de aceleração de partículas, a efectuar quando o Porto possuir o seu próprio acelerador, que irá obviamente substituir o campeonato de futebol, com transmissão em directo pelas televisões das acelerações e choques a ocorrer, com classificações e pontuações à semelhança do que acontece no actual campeonato nacional.


Pensamos deste modo efectuar uma poupança de vários milhões de contos ao erário público pois é impensável que um acelerador de partículas custe tanto como um estádio novo (20 milhões de contos!!!).

Estamos cientes da necessidade imperiosa de um novo estádio para o SLB uma vez que o actual com capacidade para apenas 120.000 pessoas é já um vetusto edifício com algumas décadas e o constante acréscimo de sócios ao clube em conjunto com o carinho que a população do país nutre por este órgão soberano, tornam urgente a demolição do velho estádio e a construção de um novo, mas não podemos deixar de notar outras necessidades imperiosas neste país, nomeadamente a restruturação e reequipamento das forças armadas, obra de cariz hercúleo, financeiramente falando mas tão premente nestes tempos de guerra que atravessamos. Com esta nossa sugestão também as forças armadas ganharão, pois a tecnologia de ponta passará a residir em Portugal e este acelerador não deixará de contribuir significativamente para a modernização dos equipamentos bélicos e quiçá para a descoberta de uma nova bomba que apetrechando as nossas forças armadas, fará com que o nosso país passe a fazer parte do grupo nuclear o que, como todos sabemos, actuará como poderoso dissuasor face aos potenciais inimigos que pululam no mundo. Pensemos no futuro risonho que desejamos aos nossos filhos! Com esta iniciativa estaremos na crista da onda da investigação científica, da exploração espacial e da procura humanista de novos valores que não deixarão de pautar o modus vivendi e incorporar na sociedade o fluxo regenerador da energia nuclear.

Também a imprensa em geral e a desportiva em particular ganhará fôlego com esta sugestão, já que os jornalistas desportivos poderão a partir dessa altura empregar com mais propriedade na ciência os termos rebuscados e vernáculos que costumam utilizar para o futebol. Ainda mais, o seu contacto com o jargão científico tornará as notícias ainda mais apelativas com as descrições dos desastres e tragédias cientificamente explicadas. Mas acima de tudo, numa visão de futuro, ganhará sem dúvida o panorama intelectual português, já que os adeptos que agora gravitam à volta do estádio da Luz, ali passando dias a fio, estoicamente abdicando dos seus trabalhos e afazeres em prole do clube, enfurecendo-se com as sucessivas derrotas e insultando os jogadores e dirigentes, poderão no futuro cevar os seus instintos nas já referidas partículas subatómicas sempre que estas não desempenhem o seu papel com a galhardia e o valor que o momento exigir, com o mesmo ardor ou maior, apupando-as e vaiando os elementos utilizados nas experiências com frases como: - Filha da puta do urânio 234 que não se desintegra como deve ser! – ou – Malditos electrões de tório que não se detectam no alvo! – Frases que, pese embora não espelhem com realismo o elevado interesse académico dos autores, elevarão no entanto a consideração que os outros países têm sobre o nosso e provocarão a inveja das grandes potências mundiais quando for noticiado internacionalmente que 8 milhões de adeptos futebolísticos portugueses optaram pela ciência face ao futebol, o que será assaz positivo.

Pensamos que esta sugestão, embora cheia de boa vontade, não deixará de agitar as águas já de si turvas do binómio político-futebolístico, cujos lobbies, há muito instalados, não deixarão de se mostrar refractários a esta viragem de rumo nos destinos do país, mas cremos que os nossos dirigentes (políticos, futebolísticos etc) cientes das directrizes do interesse nacional não deixarão de pesar na balança da razão os argumentos ora expostos e enveredar pelo caminho tortuoso e difícil da ciência, certos do porto a que pretendem chegar, apesar da turbulência do mar que experimentam.


  9-5-2001