sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Dragão


Sai de mim esta manhã
Palco de noite a recordar,
E sai de mim o intento
A intenção, o alento
Pelos meus olhos a rasgar,

A manhã frio e dolorosa
De feitiços e mistelas,
Servidos em palavrões
Daqueles que sem razões
Só persistem nas querelas,

Sai de mim a manhã
Que outra poderia ser,
E eu claro, gostaria dela
Servida sem a mistela
Só para a poder viver,

Sem a essência do mal
Ainda a transbordar,
Do meu peito armadura
Que protege mas não segura
O meu fantasma medieval,

Dragão que vives na caverna
Que vives dentro de mim,
Tu embaixador do mundo
Tu dragão que vens do fundo
Lança as chamas sobre o fim,

Apaga o perdão da sentença
Que o mundo juíz ditou,
Fá-lo pagar por chegar a ser
Mais do que há por oferecer
O mal que em si se instalou,

Admiro-te meu dragão
Tua existência imaginada,
Tem mais consistência
Que a exibida demência
Da dor da noite passada,

Tem mais beleza, mais ser
Tua imagem na realidade,
Que a asquerosa fedentina
Deste monstro que fascina
A enfeitiçada fealdade,

És tu mais eterno dragão
No acervo do que é meu,
Quando te pões a soprar
Puro sangue, fogo a flamejar
Verás que tu dragão sou eu.

20-11-2019 - 09.58

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